A Pateira de Fermentelos é uma lagoa natural, localizada no triângulo dos concelhos de
Águeda,
Aveiro e
Oliveira do Bairro, antes da confluência do
Rio Cértima com o
Rio Águeda. Considerada uma zona húmida de elevada riqueza ecológica, a Pateira de Fermentelos desde cedo se tornou um sistema em que as actividades humanas se integravam perfeitamente na sua dinâmica, permitindo assim a manutenção da lagoa. A prática de uma agricultura drenante e a recolha constante do moliço (para posterior utilização como adubo natural), permitiu a manutenção de uma significativa superfície livre de água e impediu o avanço do pântano. Este equilíbrio, entre a actividade agrícola e a recolha do moliço, conduziu a uma paisagem humanizada de elevada organização e diversidade, na qual a lagoa atingia a sua maior dimensão. No entanto, as alterações económicas e sociais operadas por volta dos anos 60, com a emigração de muitas pessoas da zona, reduziram progressivamente a prática de recolha do moliço, permitindo assim o seu livre desenvolvimento. Este processo foi ainda grandemente acelerado pela descarga de esgotos, efluentes orgânicos e industriais e drenagem dos terrenos agrícolas envolventes.
Como prometido aqui está o artigo do Sr. Victor de Oliveira:
FILME DE GRANDE METRAGEM
RODADO EM BREVE NA PATEIRA
CENTENAS DE FIGURANTES FAZEM PARTE DO ELENCO
Victor de Oliveira
Como alguns dos meus amigos mais chegados sabem, desde há muito que tenho uma certa ligação com a actividade cinematográfica, havendo mesmo quem diga que se perdeu na bruma dos tempos um grande “talento”. Mas de fracassados em todos os campos e actividades está o mundo cheio e deles não reza a história, que de certeza também se não ocupará de mim.
Ora esta minha “ligação” à “Sétima Arte” permitiu-me agora ter conhecimento antecipado de um facto que hoje aqui revelo em primeiríssima mão, sem receio de que qualquer outro órgão de informação se antecipe a tal divulgação.
A produção do filme está a cargo de uma parceria Luso-Americana, produtora de “Apocalyps Now”, com financiamentos assegurados através de verbas da UE, inicialmente destinadas à “requalificação da margem esquerda da Pateira”, as quais não foram utilizadas por inépcia das entidades responsáveis pelo respectivo programa.
Embora o guião da película ainda esteja a ser ultimado, já me foi dado conhecer algumas passagens do mesmo e a própria sequência do filme, das quais se destaca o facto de praticamente não haver necessidade de utilizar os habituais “efeitos especiais”, salvo nas imagens finais, pois a realidade da paisagem e das situações caóticas do cenário natural excedem largamente quaisquer efeitos criados a partir da ficção.
Como normalmente acontece em qualquer produção cinematogáfica, haverá cenas de exteriores, que serão obtidas na sua quase totalidade dentro e fora da Pateira, sendo as restantes produzidas em estúdio ainda não designado.
As cenas de “exteriores”, nas quais intervirão centenas de figurantes locais e de povoações limítrofes, deverão começar a ser rodadas na próxima Primavera, altura ideal para captação deste tipo de imagens devido às condições solares então existentes. Eu próprio, se tudo se confirmar, serei um dos conselheiros da produção.
Como é natural, o filme não tem ainda título em português, mas não deve andar longe de “2015 - Catástrofe Ambiental” ou qualquer coisa parecida com isto. E, ao contrário do que normalmente acontece na generalidade dos filmes, esta fita de realismo e ficção terá duas sequências totalmente diferentes, começando precisamente pelas cenas finais do filme, onde nos é apresentado um cenário de horror numa vasta zona desértica, espécie de paisagem lunar, com crateras, poeiras, lamas ressequidas e enormes fendas quebradiças, tudo misturado com esqueletos e fósseis de peixes, aves e animais de todas as espécies, num cenário arrepiante e apocalíptico, que deixará estarrecidos os espectadores mais corajosos, cenas estas que se repetirão depois na parte final do filme para dar enquadramento e sequência normal à história.
Findas estas cenas chocantes, inicia-se então uma história palpitante, vendo-se um pequeno riacho de águas límpidas e tranquilas (o Rio Cértoma) a descer a Serra do Buçaco e a atravessar calmamente uma densa floresta (a Mata de Louredo e Perrães), até entrar depois num outro curso de água (o Rio Águeda) e a seguir misturar-se com novos caudais no rendilhado de um delta (o Vouga), até se perder no mar e ser embalado em cânticos de sereia...
Nova sequência do filme mostra-nos agora uma maior superfície aquática, onde se vêem homens e mulheres a desbravar a mata, cortando árvores, arrancando algas (moliço) com que estrumavam as suas terras e por isso lhe chamavam estrume, alargando sempre, mais e mais, a superfície lagunar, até que criaram uma bela e extensa lagoa a que deram mais tarde o nome de Pateira de Fermentelos.
Era de facto bela esta paradisíaca lagoa! Extensa, de águas calmas devido à leve saliência das suas margens e encostas, verdejante e florida, pejada de golfes – nenúfares e outras plantas aquáticas, formando um encantador jardim lacustre policromado, num ciclo sempre renovado em cada ano que passava, deixando que lhe extraíssem periodicamente das suas entranhas o moliço que ela própria criava para ser usado na fertilização das terras.
E esta bela e ternurenta lagoa criava igualmente peixes aos milhões, de muitas e variadas espécies, com que se alimentavam e distraíam, sobretudo aos domingos, centenas de habitantes, sempre orgulhosos da sua lagoa, que igualmente criava essas palradoras rãs, que nos distraíam e acompanhavam noite fora, num réu-réu doce e embalador.
E porque era Pateira, criava patos e outras aves encantadoras, que esvoaçavam nos ares, constituindo igualmente um tónico para os sentidos e para o espírito.
Assim foi durante muitos e muitos anos, numa associação fraterna e carinhosa entre o homem e a lagoa.
Mas era felicidade de mais para tão pouca gente, pois esta “jóia da natureza” fazia parte do chamado “Portugal Desconhecido” e as suas gentes, por muito que a amassem, logo que a situação do país se alterou, partiram em demanda de outras terras e outros proventos, “abandonando” a sua lagoa, que durante séculos foi sua fiel companheira e lhes deu sustento, fertilizantes, encantos e prazer.
As gentes partiram e a lagoa definhou. Não por mágoa, porque os seus naturais nunca a esqueciam e era para eles sempre a sua referência mesmo em terras distantes. Definhou porque deixaram de lhe tirar o moliço que anualmente criava nas suas entranhas. E como o moliço não era retirado, apodrecia, poluindo as águas, tornando-as turvas, sugando o oxigénio renovador da vida.
Como recurso, mas sem estudos adequados, dragaram profundamente grande parte da superfície lagunar. E fizeram asneira porque, juntamente com o moliço apodrecido, foram dizimadas, arrancadas e exterminadas irreversivelmente outras espécies de pequenas algas e plantas indispensáveis para manterem e renovarem o ciclo vegetativo da lagoa.
A falta de oxigénio e outras matérias orgânicas contribuíram igualmente para a eliminação dos golfes e nenúfares, bem como as suas inseparáveis rãs e diversas espécies piscícolas e aves aquáticas. A vida na Pateira ía definhando a pouco e pouco.
Mas os tormentos da lagoa ainda estavam longe do fim. Alguém irresponsável, sabe-se lá quem, introduziu nas suas águas os malfadados e tenebrosos jacintos. E estes, astutos, começaram a ganhar espaço, a reproduzir-se aos milhões, como se verifica neste momento.
O guião do filme, como disse acima, não está ainda concluído, embora já conste do mesmo que o “tema sonoro” final incluirá precisamente o dobrar dos sinos em simultâneo de todas as igrejas que marginam a Pateira. E esta minha história, que já vai longa para uma crónica de jornal, ficará hoje por aqui. Mas o final do “filme”, que dei a conhecer nos primeiros parágrafos, poderá ser uma triste realidade lá para 2015... ou antes!
Janeiro de 2006 - Nota do autor: Este texto (de ficção) foi entregue na Redacção do “R.A.”, mas nunca foi publicado, certamente por falta de espaço.